quinta-feira, novembro 23, 2006

Um antropólogo ao serviço de Sua Excelência?

Em dia de estreia de mais um (enfado!) 007, eis que a Srª Ministra da Cultura conta com o apoio espontâneo de um antropólogo da Universidade Nova de Lisboa, Luís Marques, nos seus propósitos de fazer desparecer da face da terra o Museu de Arte Popular. O artigo está na edição de hoje do Público/Cultura (também online), tem o título enviesado de "O Museu de Arte Popular e a perspectiva antropológica" e reza assim:

Temos de aceitar que a cultura tradicional não é algo que remete só para o passado, pois as tradições continuam vivas e fazem parte do presente cultural dos indivíduos e dos grupos sociais

Neste início de milénio continua a observar-se uma movimentação desusada em torno dos museus, como que um imparável crescimento não só quanto à sua frequência, mas também no que se refere à renovação e à construção de novos espaços. Integrando o património do passado e a criação do presente irrompem, afirmam-se, renascem e reorganizam-se como uma ideia nova no mundo ocidental, constituindo um dos grandes acontecimentos das últimas décadas.
É neste contexto que surge o Museu da Língua Portuguesa - Centro Interpretativo das Descobertas, o primeiro museu que no nosso país será concebido e realizado com meios tecnológicos e de comunicação interactiva de ponta, i.e., dispondo apenas de um acervo virtual. Situando-se no âmbito do património incorpóreo, vem ao encontro das políticas internacionais mais recentes, como as da UNESCO que, desde 2001, passou a atribuir o estatuto de Obra-prima do Património Oral e Imaterial da Humanidade.
A discutível e desafiante opção ministerial incide sobre o Museu de Arte Popular, um imóvel resultante da gigantesca "Exposição do Mundo Português", de 1940, uma patética exaltação de um país imaginário. A concepção que levou à denominação Museu de Arte Popular, e que remete de imediato para a dicotomia arte popular/arte erudita, deve ser enquadrada, portanto, à luz da ideologia reinante nessa época, que pretendia que os autores ou intérpretes da chamada arte popular apenas tivessem capacidade para produzir subprodutos criativos, objectos de tipo artístico, como "expressões de uma poesia primitiva e simples... e de formas pitorescamente caricaturais".
O edifício situado à beira Tejo que será integralmente mantido como testemunho físico relevante para a compreensão e o estudo do Estado Novo, foi adaptado a museu por Jorge Segurado e decorado por vários artistas, sendo inaugurado em 1948. Contudo, as pinturas murais ali existentes "estorvam" certas soluções museológicas indispensáveis ao novo Museu da Língua e dos Descobrimentos, o que exigirá, além da sua preservação, uma grande aptidão e criatividade museológica, sem perda de objectividade científica.
Esta decisão do Ministério da Cultura que levanta algumas interrogações está, no entanto, impregnada de grandes potencialidades, podendo transformar-se mesmo num elemento dinamizador de valiosos acervos etnográficos que há décadas carecem de soluções apropriadas. Não apenas no que respeita ao Museu de Arte Popular, cujo projecto museológico veio sendo adiado até hoje, e que agora poderá ser concretizado se ficar sob a tutela do Museu Nacional de Etnologia - o único com vocação para tratar criticamente tal espólio. Esta medida deveria ser igualmente extensiva à colecção etnográfica do Dr. J. Leite de Vasconcelos que está no Museu Nacional de Arqueologia, longe dos visitantes, em péssimas e muito restritas condições de acesso. Sem falar do Museu Agrícola do Ultramar, cujas peças jazem, armazenadas, numa dependência do Jardim Tropical, ou dum vasto espólio museológico das ex-colónias, do maior interesse para o mundo da lusofonia e que permanece, desconhecido, na dependência do Instituto de Investigação Científica Tropical.
Tudo isto torna extraordinariamente oportuno repensar-se a musealização antropológica em Portugal e, em especial uma intervenção que vise alterar a decadente e asfixiante condição de colecções que carecem de urgente tratamento científico, i.e., de enquadramento socioantropológico e museográfico, sob pena de continuarmos a esconder das novas gerações um inestimável património que muito as ajudaria a entender melhor a sua condição de cidadãos portugueses.
O que implicará, certamente, no futuro, revalorizar a actuação do Museu Nacional de Etnologia, sem deixar de reflectir sobre a sua programação dos últimos anos que quase o transformaram num não lugar, tal o sucessivo número de exposições de diferentes culturas que por ali transitaram, sem o complemento de muitas outras de conteúdos alusivos à nossa cultura. O seu retorno a exposições de excelente qualidade, como a do Fado e a do Voo do Arado, tem de ser conseguido, sob pena de não termos em Portugal um museu nacional de cariz antropológico que "mostre" permanentemente ao público um pouco da cultura material e imaterial portuguesa.
Por outro lado, além da centralização de espólios etnográficos desconexos e inactivos no Museu Nacional de Etnologia, é necessário dispor de um projecto nacional integrador da cultura tradicional portuguesa (material e imaterial), também capaz de intervir no tempo presente. A exemplo, até, do que tão profícua e modelarmente alcançaram em período recente, como Jorge Dias e a sua equipa (Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Pereira) ou ainda Michel Giacometti.
Temos de aceitar que a cultura tradicional não é algo que remete só para o passado, pois as tradições continuam vivas e fazem parte do presente cultural dos indivíduos e dos grupos sociais.
O Ministério da Cultura, ao tocar em determinados estados tabus, certamente despertará incrédulas animosidades que almejam prosseguir na sua estagnada rotina, mas isso tem de ser conseguido, se se pretende contribuir para a valorização do património cultural entendido na sua globalidade, e como uma realidade cada vez mais democratizada e viável.
Doutorado em Antropologia
-Universidade Nova de Lisboa
"

Paulo Ferrero

1 Comments:

At 8:31 da tarde, Blogger Carlos said...

Este rapaz teve a sua recompensa. Veja-se aqui a sua posse como Director dos serviços regionais do Ministério da Cultura: http://www.dre.pt/pdf2sdip/2007/08/157000000/2337323373.pdf

 

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